[Batistas Brasileiros] 1964, 1985, 2003: AUTORITARISMO E CONSERVADORISMO
Caros listeiros,
No final do fantástico livro Cem Anos de Solidão do nobel colombiano Gabriel Garcia Marquez há um diálogo entre dois personagens falando do que ouviram dos antepassados a respeito da saga dos Aureliano Buendía naquela cidade, Macondo. Ao relembrarem alguns episódios espetaculares da referida família, um dos personagens - parte de uma geração mais nova da cidade que não conheceu os Aureliano Buendía - faz uma pergunta que coloca em dúvida, pela primeira vez, fatos ocorridos naquela comunidade. Isso é por demais fantástico para ter ocorrido, conclui o personagem.
Ao ler o livro Brasil Nunca Mais, que publica parte de inquéritos e processos contra brasileiros que sonharam e lutaram por um país mais justo, feitos pela própria Justiça Militar no período da Ditadura de 1964, as gerações mais novas poderão questionar: Mas isso aconteceu mesmo?? É fantástico demais!!
A História é uma ciência social fundamental para compreendermos o passado, mantermos a memória dos fatos que nos antecederam e buscarmos reconstruir o presente e o futuro de uma forma que jamais sejam cometidos erros, como aqueles que atingiram drasticamente nossa sociedade brasileira no período da Ditadura Militar iniciada em 31/03/1964.
Tudo o que se falar, escrever, representar sobre os absurdos da Ditadura de 64, ainda é pouco, insuficiente! Nesta semana algumas emissoras de TV e rádio, jornais e revistas tem dado destaque a essa parte da História brasileira numa tentativa de compreender, apresentar estes fatos às novas gerações e até exorcizar tal demônio que se abateu sobre o país.
Ao recordamos hoje os 40 anos deste fato triste, trágico, terrorista, bem que podíamos - como denominação batista - fazermos nossa mea culpa neste processo. É digno, é justo e é cristão, pois enquanto havia tortura, desaparecimentos, banimento, limite das liberdades de expressão, assassinatos etc, permanecemos mais que na omissão. Houve até apoio explícito algumas vezes e em vários setores denominacionais. Era comum naquele período igrejas batistas fazerem "cultos cívicos" no dia 31 de março. Em 1982 numa reunião de batistas no Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, o último gorila do período militar - segundo expressão do jornalista Márcio Moreira Alves (O Globo) - João Figueiredo, esteve no encontro e falou nos microfones...
Ao falar de 1964, recordamos outros autoritarismos e intolerâncias na vida denominacional, como aquela reação consevadora que ganha força, espaços e poder a partir de 1985 entre os batistas. Os exemplos paradigmáticos do que ocorreu no Seminário do Sul e no Seminário do Norte falam por si mesmos: Demissão sumária de professores, cerceamento de liberdades, alterações curriculares etc. A História desse período ainda está para ser escrita. Os fatos de hoje, no entanto, apontam que aqueles líderes estavam equivocados, assim como os líderes militares de 64.
Mas a história das injustiças e aniquilamento dos diferentes não acaba. 2003 será outro ano lembrado no contexto denominacional a partir dos fatos ocorridos no STBSB: demissão de uma dezena de professores via e-mail ou telefone, sem qualquer direito a diálogo, como no caso da célebre pedagoga que desejava reunir-se com o dirigente, mas ele não aceita, pelo contrário, manda que ela passe diretamente no Departamento Pessoal para fazer a demissão, ou do célebre professor de História, convalescendo de cirurgia de coração, que chega para dar aulas no início do semestre e o funcionário lhe pergunta: O que o senhor faz aqui? Não recebeu e-mail avisando que foi demitido?
Aqueles que dizem defender são os primeiros a rasgar a Declaração Doutrinária e os Princpíos Batistas... Os que, de fato, defendem tais princípios são sumariamente alijados.
Estes três exemplos acima embora em níveis de intensidade e contextos diferentes desembocam num mesmo caminho: Autoritarismo, intolerância, quebra da liberdade de expressão.
Hoje cedo orei com minha filha rogando ao Senhor pelas famílias que perderam seus filhos e outros parentes na Ditadura e pedi a Deus que nos ajude a nunca mais viver essa realidade dramática em nosso país.
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Escrevo este texto em memória de Edson Luís, Vladimir Herzog, Carlos Lamarca, Rubens Paiva, Travassos, os jovens anônimos do Araguaia, os estudantes, os operários e tantos outros que perderam a vida em favor do Brasil.
Clemir Fernandes